sábado, julho 12, 2014

Hoje em dia, os sindicatos lutam contra os trabalhadores

Sabiam que, no dia 10 de Julho houve uma manif da CGTP? Não sabiam? Isso é porque dão tanta importância aos sindicatos como à órbita de Neptuno.
Eu não percebo nada de astronomia por isso não sei exactamente como é que a órbita de Neptuno me afecta, mas sei para que serve um sindicato.
Mas há muita gente que dispensa os sindicatos. E não são patrões! São funcionários, assalariados, povo trabalhador que nem sequer desempenha qualquer função de chefia. Então porque é que dispensam os sindicatos? Aí está uma boa pergunta!
Porque é que trabalham 12 horas por dia sem pagamento de horas extraordinárias quando os seus contratos prevêem 7h30?
Porque é que ficam on call durante o fim-de-semana se não têm isenção de horário e o contrato diz que trabalham apenas nos dias úteis?
Porque é que gastam dias de férias quando ficam doentes?
Porque é que fazem tudo isto por um salário abaixo da média para as funções que desempenham?
Porque é que fazem isto numa PME cujo patrão pretende apenas ganhar o suficiente para ter um ordenado e pagar uma casa de férias?
Não... não é voluntariado. Os voluntários costumam apoiar causas nobres e, para mim, aumentar a riqueza do patrão evitando que ele precise de fazer novas contratações está nos antípodas das causas pelas quais vale a pena fazer voluntariado.
Não... não é ser competente. Ser competente é executar as suas funções dentro dos limites de trabalho impostos e ter capacidade de gerir o seu tempo.
Mas as pessoas gabam-se de saírem tarde e trabalharem muitas horas. Assim, o trabalho que desempenham parece mais importante. Tão importante que os torna indispensáveis até às tantas. Tão importante que o patrão nas os dispensa e liga-lhes mesmo durante o fim-de-semana. Tão importantes que têm o e-mail do trabalho no telemóvel e respondem aos e-mails à meia-noite de sábado porque estão sempre em cima do acontecimento.
Ora aqui vai uma novidade: estas pessoas não são funcionários exemplares e estão longe de ser insubstituíveis. São escravos! E daqueles escravos esclavagistas. Dos que defendem o amo e tudo fazem para manter o estatuto de escravos.
Quem faz horas extraordinárias sem remuneração está a oferecer borlas ao patrão. Enquanto o funcionário oferecer borlas, o patrão não terá necessidade de contratar outros trabalhadores para distribuir a carga de trabalho excedente nem vai pagar horas extraordinárias a ninguém. Para quê? Se há alguém disposto a trabalhar à borla, para que é que ele há-de pagar?
 E, o mais curioso é que muitas vezes, estas pessoas trabalham à borla para garantirem a manutenção do seu posto de trabalho. Ou seja, para não ficarem desempregadas. Contudo, enquanto houver quem trabalhe à borla, o desemprego não diminui, o que significa que quem oferece dias e horas de trabalho gratuito porque tem medo de ir para o desemprego, está a contribuir para que as pessoas que estão desempregadas continuem sem emprego.
E isto também é válido para quem aceita estágios não remunerados repetidamente. Há empresas que conseguem ter sucessivos batalhões de estagiários a garantir o funcionamento da empresa à borla! Se ninguém aceitasse estágios não remunerados, as empresas não teriam outra hipótese senão pagar! É a lei da oferta e da procura. É básico!
Também há quem trabalhe mais do que é preciso para tentar subir na hierarquia da empresa, para ser promovido. O problema é que há sempre várias pessoas a pensar no mesmo e só um lugar. Mesmo que algum desses trabalhadores consiga alcançar um posto mais alto na hierarquia, todos os outros ficam frustrados.
E será que vale a pena sacrificar anos de luta pelos direitos dos trabalhadores, por um aumento? Naqueles países disparatados onde a economia cresce e as contas públicas dispensam Troikas, as leis laborais protegem mais os trabalhadores. É curioso... A protecção na parentalidade é muito mais abrangente na Suécia, por exemplo. Será que os suecos fazem horas extraordinárias à borla porque é assim que conseguem mais direitos? Óbvio que não!
Antes do 25 de Abril não havia sequer direito a férias. Os direitos que hoje se encontram no Código do Trabalho foram o fruto de muita luta. E essa luta é a daqueles senhores que vão para a rua tentar acabar com os falsos recibos verdes, com a precariedade e com a exploração. Sim, esse pessoal chato sindicalista que não quer deixar ninguém trabalhar à borla para um amo explorador. Essa praga que luta contra o direito de algumas pessoas prejudicarem outras e a elas próprias!

sábado, julho 05, 2014

Para uns há barmans, para outras há esteticistas!

Sabem aquela cena típica das séries e dos filmes em que alguém entra num bar, senta-se ao balcão, pede uma bebida e desabafa com o barman?
Ora, se forem uma mulher abstémia ou que não gosta de se sentar ao balcão dum bar, têm sempre a vossa esteticista. Há muita gente que substitui o psicólogo pela esteticista. Sai mais barato porque se paga um serviço de estética e leva-se o serviço de psicologia à borla.
Mas também há uma versão diferente desta conversa de centro de estética. Não sei se é uma tendência nova ou se já era frequente e eu só reparei agora. Trata-se da conversa ao telemóvel num volume muito elevado para que toda a gente possa ouvir a conversa. E a conversa não é sobre as dores nas costas, a malvada da sogra, o mau comportamento dos filhos na escola ou a mala da Carolina Herrera que a vizinha comprou. Não... esta conversa é sobre as férias (se houver planos que pareçam finórios) ou assuntos de trabalho super complexos porque o emprego super interessante e cheio de sucesso merece ser partilhado com pessoas que não se conhecem de lado nenhum.
O tempo em que as conversas ao telefone eram um assunto privado está em vias de extinção. Agora fala-se ao telefone como se se comentasse um actualização de estado pública no Facebook. A diferença é que, no Facebook, eu só leio os comentários que me interessam, mas quando tenho uma criatura ao meu lado a berrar que o seu colega está tão preocupado com a situação super delicada do cliente super internacional que até pondera ir num avião super chique ao país do cliente super importante para falar com ele sobre aquele assunto mega delicado... não posso ocultar do meu feed de notícias e isso, é uma realidade desagradável...
Se quiserem desabafar com a esteticista, tudo certo... Mas se quiserem mostrar a toda a gente que está a arranjar as unhas, que não estão desempregadas... então guardem esse assunto para o Facebook para que os outros possam optar por ignorar.